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Meu Filho Se Corta: O Que Fazer Quando Você Descobre

Marcio AlbuquerqueMarcio Albuquerque · Psicanalista e Pastor · 23/04/2026

O essencial primeiro

Descobrir que seu filho se machuca é desesperador. Mas você estar aqui já mostra algo importante: você se importa. A automutilação não é manipulação nem frescura — é um pedido de ajuda que precisa ser acolhido, não punido. Com o acompanhamento certo e um ambiente seguro, existe caminho. Você não precisa enfrentar isso sozinho.

17%
dos adolescentes já praticaram automutilação (OMS, 2024)
3 em 4
pais só descobrem meses depois dos primeiros episódios
70%
dos casos melhoram com acompanhamento adequado
Grátis
1ª sessão comigo — orientação para pais também

Se você descobriu que seu filho se corta, provavelmente está sentindo um misto de desespero, culpa e medo. Talvez tenha visto as marcas por acaso. Talvez alguém tenha contado. E agora você não sabe o que fazer — se fala, se finge que não viu, se leva ao médico, se grita, se chora. Respire. O fato de você estar aqui, buscando entender, já é o primeiro passo certo. Vamos conversar sobre isso com calma, sem julgamento — nem de você, nem do seu filho.

Por que alguém se machuca de propósito?

Essa é a primeira pergunta que surge — e a resposta costuma surpreender. Na grande maioria dos casos, a automutilação não é tentativa de suicídio. É uma forma de lidar com uma dor emocional que parece insuportável.

Imagine uma panela de pressão sem válvula. A pessoa sente tanta angústia, tanta tensão por dentro, que o corte funciona como um alívio momentâneo. É como se a dor física 'organizasse' o caos interno por alguns instantes.

Isso não significa que não seja grave. Significa que seu filho está sofrendo de um jeito que ele ainda não aprendeu a expressar com palavras. O corpo fala quando a boca não consegue.

Também não é 'frescura', 'fase' nem 'chamação de atenção' no sentido pejorativo. Se é um pedido de atenção, então é um pedido legítimo — porque algo dentro dele está pedindo socorro.

O que NÃO fazer quando descobrir

O primeiro impulso pode ser gritar, chorar, tirar objetos cortantes de perto ou exigir que ele pare. É compreensível. Mas algumas reações, mesmo bem-intencionadas, podem piorar a situação.

Respire antes de agir. Seu filho precisa sentir que pode falar com você sem ser punido por isso.

Como conversar com seu filho sobre isso

Essa conversa dá medo. Mas evitar o assunto não protege — só isola. Escolha um momento calmo, sem pressa. Não durante uma briga, não na frente de outras pessoas.

Comece com algo simples e honesto:

'Eu vi as marcas. Não estou aqui pra brigar. Estou aqui porque me importo com você.'

Depois, escute mais do que fale. Resista ao impulso de resolver na hora. Ele pode não conseguir explicar — e tudo bem. O que importa é que ele saiba que pode falar quando estiver pronto.

Evite perguntas que soem como interrogatório: 'há quanto tempo?', 'quem te ensinou isso?', 'por que não me contou?'. Prefira: 'como você está se sentindo?', 'o que posso fazer por você agora?'.

Essa conversa não precisa resolver tudo. Ela só precisa abrir uma porta.

O que está por trás — um olhar mais profundo

Por trás da automutilação quase sempre existe algo que não encontrou outro caminho de expressão. Pode ser:

Na escuta clínica, o que aparece com frequência é um adolescente que aprendeu cedo a 'não dar trabalho'. Que engoliu tanta coisa que o corpo começou a devolver de outro jeito.

Isso não é culpa sua como pai ou mãe. Mas é uma responsabilidade que agora está nas suas mãos — e você pode fazer diferença.

Quando buscar ajuda profissional — e que tipo de ajuda

A resposta curta: agora. Se você descobriu que seu filho se corta, o momento de buscar ajuda já chegou. Isso não significa que ele está 'louco' ou que você falhou. Significa que ele precisa de um espaço seguro para falar o que não consegue falar em casa.

O ideal é uma combinação:

  1. Psicanalista ou psicólogo — para o adolescente ter um espaço próprio, sigiloso, onde possa elaborar o que sente sem medo de consequências.
  2. Avaliação psiquiátrica — em alguns casos, quando indicada por profissional, a medicação pode ajudar a estabilizar o sofrimento enquanto o trabalho terapêutico avança.
  3. Orientação para os pais — porque vocês também precisam de suporte. Saber como agir no dia a dia faz toda a diferença.

Se o seu filho resistir à ideia de terapia, não force na primeira conversa. Mas também não desista. Às vezes, ouvir 'é só uma conversa, sem compromisso' ajuda a baixar a guarda.

Como cuidar de você enquanto cuida dele

Ninguém fala sobre isso, mas precisa ser dito: descobrir que seu filho se machuca dói em você também. A culpa, o medo, a sensação de impotência — tudo isso é real e legítimo.

Você não precisa ser forte o tempo todo. Não precisa ter todas as respostas. Não precisa fingir que está tudo bem.

Algumas coisas que podem ajudar:

Lembro de uma mãe que atendi e que disse: 'eu não sabia que podia pedir ajuda pra mim também'. Pode. E deve.

O que esperar daqui pra frente

Não existe solução rápida. Não existe 'em 30 dias seu filho para'. O caminho é gradual, e pode ter recaídas — isso faz parte do processo, não é sinal de fracasso.

O que você pode esperar com o acompanhamento certo:

Na minha primeira sessão — que é gratuita — eu costumo ouvir tanto o adolescente quanto os pais, separadamente. É um espaço sem julgamento, sem pressa. Às vezes, só o fato de alguém ouvir de verdade já muda alguma coisa por dentro.

Você não precisa ter coragem. Só precisa dar o próximo passo.

A ferida é o lugar por onde a luz entra em você.— Rumi

Se você está em crise neste momento

Se agora você pensou em se machucar, em não querer mais viver, ou sente que "não vai aguentar até amanhã" — por favor, procure ajuda imediata. Você não precisa esperar piorar. Pedir ajuda agora é coragem, não fraqueza.

  • CVV — 188 · 24h, gratuito, de qualquer telefone
  • CVV Chat · cvv.org.br/chat
  • SAMU — 192 · emergência médica imediata
  • CAPS · busque a unidade mais próxima de você

Perguntas frequentes

Automutilação significa que meu filho quer se matar?
Na maioria dos casos, não. A automutilação costuma ser uma forma de aliviar dor emocional, não uma tentativa de acabar com a vida. Porém, é um sinal de sofrimento intenso que precisa de atenção profissional. Não minimize, mas também não entre em pânico — busque orientação especializada.
A culpa é minha como pai ou mãe?
Não se trata de culpa. Adolescentes enfrentam pressões que muitas vezes são invisíveis para os pais — e isso não significa que você falhou. O que importa agora é como você responde. Estar aqui buscando entender já mostra que você se importa e quer ajudar.
Devo tirar todos os objetos cortantes de casa?
Retirar objetos pode parecer lógico, mas quem quer se machucar encontra outros meios. O foco deve ser tratar a causa, não apenas remover o instrumento. Dito isso, se o risco for imediato, reduza o acesso a objetos perigosos enquanto busca ajuda profissional urgente.
Posso falar sobre isso com a escola?
Depende. Se a escola tiver um psicólogo ou orientador de confiança, pode ser um aliado. Mas converse com seu filho antes — ser exposto sem consentimento pode gerar vergonha e quebrar a confiança. Envolva a escola com cuidado e discrição, priorizando a privacidade dele.
E se meu filho se recusar a ir ao psicólogo?
É comum, especialmente no início. Não force, mas também não desista. Explique que é uma conversa, não um castigo. Ofereça opções — atendimento online costuma ser menos intimidante. E enquanto ele decide, você pode buscar orientação sozinho. Às vezes, quando os pais começam, o filho aceita depois.
Marcio Albuquerque
Marcio Albuquerque
Psicanalista e Pastor
Psicanalista e pastor evangélico. Atendimento online a brasileiros no Brasil e no exterior. Mais de 20 anos de aconselhamento pastoral.
Aviso importante: este conteúdo é informativo e não substitui acompanhamento terapêutico profissional. Se você está em sofrimento agudo, procure ajuda: CVV 188 (24h, gratuito), SAMU 192 (emergência), ou a unidade de CAPS mais próxima. Nenhum artigo deste site diagnostica transtorno nem prescreve medicação.